O presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, bateu finalmente o pé e decidiu, esta semana, que os passageiros frequentes da classe económica irão passar a viajar no porão dos aviões, juntamente com os animais enjaulados, os enchidos ibéricos, e a bagagem em geral. É uma medida que visa reduzir os custos no orçamento da AR recolocando as gentes nos seus devidos lugares – metendo o camelo no buraco da agulha, por assim dizer – e mostrando aos senhores deputados como é dura a vida do cidadão comum dando-lhes a experimentar um pouco do desconforto das massas. Assim, os deputados vão deixar de voar em primeira classe e serão vergonhosamente despromovidos à classe executiva – onde, como é do domínio público, os passageiros convivem com baratas, ratos, hospedeiras com infecções, e mau champanhe escocês. Tudo isto à custa do Estado.Mas estão a ver a lógica da coisa, ou não? Se os deputados – todos os 230, que viajam com grande frequência e sob qualquer pretexto (em 2007 a AR gastou 351 mil euros em viagens, o que equivale a 5850 voos entre Lisboa e Madrid em classe económica, o que equivale a 16 voos diários entre Lisboa e Madrid) – forem recambiados para a classe executiva, deixando a primeira classe para as pessoas realmente importantes, o pessoal da classe executiva terá, necessariamente, de ser recambiado para a classe económica e, helas, o pessoal da classe económica não terá outra alternativa senão habitar o porão das aeronaves onde, segundo informações que me chegaram da boca de um fox terrier, não se viaja assim tão mal. No fundo, para nós, os económicos, é uma promoção. Sem a incómoda necessidade dos assentos ou dos cintos de segurança, teremos liberdade para trocar ideias e cabeçadas e, ao mesmo tempo, tratar pessoalmente da segurança dos nossos animais (eu viajo sempre com galinhas) e de zelar pelo estado da nossa bagagem. Quem sabe os amigos ou paixões que poderão surgir naquela escuridão com cheiro a cabra montanhesa e aos fumos tóxicos das turbinas? Teremos ainda o regozijo de saber que, lá em cima, na classe executiva, os deputados da AR estão a passar por agruras que eram inimagináveis antes das novas regras impostas por Jaime Gama. A pergunta deixará de ser “para onde tanto viajam os nossos deputados” e passará a ser “por que razão se sujeitam os nossos deputados a tal martírio”?
As últimas informações, contudo, dizem que não estaremos sozinhos. O Jerónimo de Sousa e a Ana Drago já se voluntariaram para viajar no porão. Ao primeiro tenho algum medo de o encontrar no escuro (sobretudo na secção dos enchidos ibéricos). Quanto à Ana Drago, teremos muito para conversar. Fazemos anos no mesmo dia e parece que é benfiquista.












